DayTrippers – Paixão em Viajar

Sapzurro: como o pequeno paraíso virou um grande inferno

A caminho do paraíso

Já passava da meia noite e nós dormíamos tranquilamente quando chegou nosso amigo Guillermo, francês, há um ano viajando pela América do Sul, gritando: Fomos roubados, fomos roubados! Acordamos zonzos, sem entender. Como assim, em Sapzurro? Nesse vilarejo paradisíaco do caribe colombiano, com uma população de menos de 500 habitantes? Levantamos correndo e assustados.

A noite caindo com lua cheia

Na calada da noite alguém entrou no “Paraíso Sapzurro – El Chileno”, cortou os arames que protegem a área comum e de cozinha e arrombou os “lockers”. Levou nosso computador, celular e tablet, e dos franceses uma mochila com eletrônicos, passaporte e todo o dinheiro que tinham. Olhamos um pouco em volta para procurar algum vestígio, ligamos na polícia e não atenderam então fomos até eles não acreditando no que havia acontecido. Na delegacia nos atendeu um policial com uma arma tão grande que parecia pronto para guerra, mas não estava pronto para ir ver o problema naquela hora. Atendimento só às 7:00 da manhã.

Recebendo a polícia

Voltamos, demos mais uma olhada nos arredores e encontramos a mochila deles no jardim da pousada, faltando a câmera e o dinheiro, os passaportes haviam sido “devolvidos”. Então por volta das 4:00 da manhã tentamos dormir. A cabeça acelerada, um sentimento de susto e tristeza. Despertamos como se nem tivéssemos dormido e fomos vasculhar um pouco mais. Ligamos novamente e depois de um tempo chegaram 9 policiais, 3 fardados e 6 em suas roupas de domingo, todos muito bem armados. Muito eficientes, vasculharam os arredores, colocaram pressão nos donos da pousada e disseram que esses deveriam se responsabilizar pelo ocorrido. Disseram que voltariam às 12:00 para dar o veredito final da situação. Tic tac, tic tac… Ninguém apareceu, fomos novamente à delegacia, com o intuito de fazer o B.O. Prometeram que logo fariam e também que iriam até a pousada, mas que estavam muito ocupados com outros casos, afinal era domingo e tinham muito “trabalho”. Nada, ficamos literalmente a ver navios, afinal o Paraíso Sapzurro é beira-mar. No final do dia fomos pela 4a vez à delegacia, e os mesmos policias dispostos a nos ajudarem pela manhã, mudaram radicalmente de atitude, impacientes, nos diziam que era um caso muito difícil de solucionar e se dispuseram a fazer um documento de perda de pertences, pois ali não se fazia denuncia de roubo, isso só poderia ser feito em Acandí, a área central da municipalidade há 2 horas de barco dali, saídas diárias a USD25. Nessas idas e vindas discutíamos com o dono da pousada, na verdade o filho do dono (um dos responsáveis pelo local), que não estava nem aí para o nosso problema, apenas se embriagava de cerveja e aumentava o volume da sua música tamanha a falta de respeito. Faltava banho, faltava dormir, faltava comida, apenas nervosismo sem fim, e muito descaso tanto da polícia como da pousada.

A nada recomendada “Paraiso Sapzurro, El Chileno”

Então nessa última visita a delegacia, quando metade da cidade já sabia do nosso probleminha, chega o francês, ou Miguel, um querido que mora ali em Sapzurro e ficou sabendo pela vizinha de toda a dificuldade. Solidário com o nosso problema, entrou na sala e nos disse que tinha 2 quartos e uma ducha em sua casa, e que nós éramos bemvindos. Já tínhamos retirado tudo da pousada mesmo, sem saber pra onde ir, pois faltava clima e segurança no lugar, então a casa do francês seria nosso novo lar. Nos serviu um belo jantar, e nos ofereceu uma ótima prosa que nos permitiu relaxar um pouco depois de 24 horas girando em torno do mesmo problema. Nessa noite também não foi fácil dormir, um som muito alto de uma festa popular ficou ligado até às 5 da manhã quando parou pra recomeçar às 7, sério!

Nós e o querido Francês

Não tínhamos dinheiro para sairmos os 4 de barco, então o jeito era tentar uma carona. A armada (marinha) estava fazendo uma ação no local e lhes pedimos carona na noite anterior explicando a situação. Disseram que nos levariam, então logo cedo fomos pela ultima vez tentar fazer o B.O.(até isso tava difícil de conseguir). Acho que era nosso dia de “sorte”, um dos policiais disse que prepararia o documento bem rápido para não perdemos a carona. B.O. feito fomos para o pier pegar nossa carona com a armada, mas a quantidade de pessoas no barco excedia o permitido. Tentamos, pedimos, imploramos debaixo de um sol escaldante e nada. Sem saber o que fazer e desesperados para sair daquele inferno, também pedimos à polícia uma carona, até que um amigo da armada aponta para um barco e diz para irmos com eles. Uns desconhecidos, turistas colombianos passando o final de semana no local, corremos para embarcar.

Saída, só pelo mar

O barco rodou menos de 20 minutos e parou. Um dos motores não funcionava e só com um motor chegaríamos em Turbo depois da meia noite. O coco-loco, nosso piloteiro, tentava arrumar, mas nada. Fomos até Acandí, a passos de tartaruga para arrumar o motor. Já no final da tarde, depois de algum tempo, fomos informados que só sairíamos no dia seguinte.

Nos arrumaram um lugar para esticar as barracas, e fomos para a casa de um amigo do coco-loco. Ali tomamos umas cervejas, rum e aguardente, oferecidos pelo pessoal do barco, relaxando um pouco dos interminaveis problemas. Fomos parar em um barzinho à beira mar, daquela cidadezinha feia e suja, com música extremamente alta e um trânsito intenso de motos. No final da noite fomos buscar o lugar para armar a barraca, mas nossa anfitriã tinha ido para a festa. Foi “free camping”, beira rio, num pasto qualquer de algum desconhecido. Uma certa tensão, armamos as barracas bem perto, nós e nossos amigos franceses, parceiros de perrengue e de bons momentos também, o Guillermo e a Julie. Passamos a terceira noite semi-despertos, um olho fechado e o outro observando o movimento, abraçados ao que tinha sobrado após o roubo. Sem banho, acordamos suados e com o cabelo que dava pra fritar um ovo de tanto óleo. O rosto castigado pelo cansaço e as olheiras denunciando o esgotamento de três dias de pesadelo.

Noite conturbada em Acandí

Fomos procurar o pessoal, soubemos que o barco estava pra ficar pronto mas o coco-loco havia sumido durante a noite. Os outros amigos do piloteiro o encontraram, na verdade ele passou a noite em claro e ainda estava pela rua. Enquanto o motor recebia os últimos ajustes ele dormiu, mas a nossa tensão para chegar em terra já estava no limite. Conseguimos convencê-lo a acordar e pilotar, então pegamos o barco e mais alguns caroneiros e seguimos caminho à civilização. O motor ainda morreu outras 3 vezes, mas conseguimos chegar de volta a Turbo, a cidade que consideramos ser a mais feia e suja da viagem até agora, ainda com a tarefa de arrumar uma peça do carro que estava solta e o carregador de um computador que ainda nos restava.

Depois da tempestade vem a calmaria

E aí, quer viajar?

3 comentários sobre “Sapzurro: como o pequeno paraíso virou um grande inferno

  1. Luis Ávila

    Luis Ávila · Economia Pucc
    Isabela Figueiredo Miranda e Rafael Avila. É muito chato, para dizer o mínimo, a situação pela qual passaram. Mas vocês, tenho certeza, não vão deixar de continuar nessa grande viagem. Afinal, ainda faltam três meses dessa primeira etapa. Depois mais um ano. Força, coragem e vontade. Isso não lhes falta. Bj
    PS. Procurem patrocínio de uma SEGURADORA. Seria bom num caso desses!!!

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