Entre Artistas E Viajantes: Outras Formas De Se Fazer Uma Viagem Longa

No caminho entre Boa Vista e Presidente Figueiredo

Chegamos a Presidente Figueiredo em meio a um festival de rock e sem saber onde dormir. No caminho tínhamos encontrado um casal de brasileiros em uma viagem Brasi-Alaska que retornava depois de 2 anos e com eles nos juntamos para passar a noite em um posto de gasolina. Posto é grátis, mas não é gostoso, então no dia seguinte fomos buscar um camping. Paramos onde vimos uma barraca e encontramos um figura cabeludo, só de bermuda, em uma van com a inscrição “creadora de sueños”. Ele disse que ali era camping mas o dono não estava e se apresentou como Leandro. O papo fluiu, o dono chegou, logo estávamos comprando um peixe para fazermos um almoço juntos no sítio do Mestre Gato, o tal dono.

No camping do Mestre Gato

Enquanto preparávos o almoço, começamos a conhecer melhor Leandro, Byma, Martin e Julie, Fred e Lidia, além do próprio Mestre Gato, que é uma figura à parte. O Leandro é um argentino que saiu de Buenos Aires com a “creadora de sueños” e foi cruzando o Brasil fazendo performances circenses na rua para fazer dinheiro e em escolas pra dar sua contribuição a educação das crianças, abordando principalmente temas ecológicos. Em Natal ele conheceu o Esteban, um saxofonista também argentino que passou a integrar a trupe da van. Ambos fazem arte de primeira, o Leandro se transforma em um mostro de quatro pernas de pau, e o Esteban apresenta seu instrumento pelas ruas. Precisando eles variam, o saxofonista por exemplo estava com o braço machucado então fazia algum vendendo artesanato.

Martin, Julie, Estaban e Leandro

Outros que fizemos boa amizade foram o Martin e a Julie, um casal que sempre trabalhou com arte e resolveu sair pra mostrar um pouco do trabalho fora de casa. Ele toca violão e faz boas gorjetas nos bares com um repertório de rock a tango. Ela pinta o “rostro” das crianças e monta uns quadrinhos de colagem. Além disso, trocaram a estadia pela pintura de um mural de capoeira no camping do Mestre Gato. Muita gente troca trabalho por estadia.

Martin e Julie pintando o mural

Pra completar chegou ao camping um grupo de 15 viajantes que vinham desde o Equador em bicicleta. Viajam em comunidade, em bicicletas simples, todos fazendo alguma forma de arte, artesanato, música, malabares, e o que mais puder contribuir para o grupo e as deliciosas refeições vegetarianas que fazem geralmente em fogões à lenha em algum canto que os acolha, com ingredientes variados da terra, diversos brotos, legumes e grãos, e tudo aquilo que puderem recolher na xepa. No grupo, argentinos, chileno, colombianos, suíças e um querido brasileiro, o Bessa, um cara com uma visão simples do mundo, inteligência ímpar, naturalmente sábio. Um grande amigo!

Bessa, querido!

Esse potiguar nos contou como foi humilhante o tratamento recebido por seus amigos na imigração ao Brasil. “Vim ao meu país, mostrar aos meus amigos o lugar onde nasci, e o tratamento na fronteira me deixou envergonhado. Minha volta ao Brasil depois de 2 anos foi muito dura…” Entre as pessoas que chegaram, algumas receberam visto de 3 meses, outras de 1 mês e algumas, especialmente a garota grávida, de 5 dias! O critério para a decisão era a “boa vontade” do funcionário da fronteira que media os viajantes de cima abaixo e classificava como queria, o que via como um “bando de hippies” e dispensava respeito.

A galera da bike

Recém iniciávamos nosso projeto de venda de postais com o intuito de nos mantermos mais na estrada e não tínhamos ideia se as pessoas valorizariam nossa arte diante da banalização da fotografia nos dias de hoje. Nossos amigos eram puro incentivo, adoraram os postais, a qualidade das fotos e disseram que venderíamos muito bem e que deveríamos cobrar no mínimo 5 reais a unidade. Isso nos animou então saímos para trabalhar, todos nos desejando boa sorte no primeiro dia de “mangueio” e também desejavam boa sorte uns aos outros. Abrimos a barraca, montamos a mesa e logo muita gente chegou, viu, ouviu nossas histórias, perguntou e também comprou. Adoramos, e víamos nos nossos amigos também a felicidade por nós. Aliás, quem se interessar pelos postais é só comprar em www.daytrippers.com.br/postais

Galera apoiando as vendas

Demos carona a Julie e ao Martin pra voltar da praça ao camping, no outro dia carregamos a pesada perna de pau do Leandro, assistimos ao show dos Mutantes na companhia do Bessa, ficamos felizes com a boa venda do Byma depois de dias ruins, compartilhamos comida, nos deram comida, cozinhamos juntos, recuperamos a bicicleta antiga do Leandro levada por um bêbado, trocamos contatos, demos postais aos amigos, convidamos à nossa casa que nem temos. A Julie e o Martin se juntaram à “creadora de sueños” e os 4 argentinos passaram a viajar juntos. Desejamos nos juntar e seguir viagem com eles, trabalhando, rindo e compartilhando aquela energia boa. Foi assim que passamos os primeiros 4 dias em Presidente Figueiredo sem nem nos darmos conta de que ali era a “Terra das Cachoeiras”. “Mangueando” e fazendo amigos.

Descansando no camping

Próximos Passos

Passado o final de semana e o festival de Rock de Presidente Figueiredo a cidade esvaziará deixando as cachoeiras mais tranquilas e agradáveis. Hora de uma hidromassagem natural.

Rafa na cachoeira da pedra furada

2 comentários sobre “Entre Artistas E Viajantes: Outras Formas De Se Fazer Uma Viagem Longa

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