DayTrippers – Paixão em Viajar

Caracaranã, lago paradisíaco na controversa Terra Indígena Raposa Serra do Sol

Roraima é apaixonante, distante das nossas terras natais, pura novidade pra nós! É também palco de intermináveis disputas por terras entre índios e não-índios há muito tempo, tendo sido notícia em rede nacional nos últimos anos. O subsolo rico em minérios faz a região internacionalmente interessante e o fato de ser fronteira a torna uma área estratégica. Para se ter uma ideia, o trabalho de demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol concluído em 1993 e homologado em 2005 iniciou-se em 1919! Entre outros, criadores de gado, garimpeiros e por último os rizicultores ocuparam a área até 2009, quando por determinação do STF, a área de 1,7 milhão de hectares habitada por 5 etnias foi desocupada em favor de 20 mil índios. Tempo suficiente para levar brasileiros a se digladiarem, ofenderem, matarem, morrerem, odiarem. Brasileiros brancos, negros, amarelos, índios que, cada um a sua maneira, tiveram parte no processo histórico de formação de um pais belo por sua diversidade.

A paz no lago Caracaranã

E foi aí nesse caldeirão chamado Raposa Serra do Sol que fomos a convite do cacique Felipe com a Ana, nossa amiga que trabalha na ONG Expedicionários da Saúde, e o Anselmo, líder indígena Yanomami e hoje também nosso amigo. Mais de 200 quilômetros a norte de Boa Vista chegamos a aldeia Terzo Vermelho onde o Felipe nos convidou para bater um papo à sombra da sua casa simples de barro e sapé. Ali nos contou um pouco da realidade da causa indígena, as inúmeras reuniões que costumam fazer para definir o futuro da comunidade e com muita simpatia nos levou para conhecer a escola e as crianças que estudam em uma casinha simples que favorece o vento nesse lugar de sol escaldante.

Com o curumim na casa do Seu Felipe


Andando pelo Terzo Vermelho


A escolinha

De lá partimos agradecidos pela hospitalidade rumo ao lago Caracaranã, mas nao antes de… um belo atolamento. Pura barbeiragem minha, na empolgação e na ausência de trânsito me descuidei por 1 segundo e foi o suficiente para as duas rodas da direita afundarem na lama. O Curumim deitou os eixos e o diferencial na terra e dali decidiu que não sairia facilmente. E na hora de colocar o guincho em ação pela primeira vez em nosso favor (as outras 2 vezes foram para ajudar carros atolados de terceiros), nada! Juntaram ao menos 10 índios para cavar e empurrar, além de uma camionete da Funai que passava por ali e foram 2 horas de perrengue até desatolar. Quase perdemos o por do sol!

Atolados!

Chegando no Caracaranã fomos logo preparando acampamento para ficarmos livres e seguirmos para um banho no lago, enquanto a lua nascia refletindo dourada na água. Como chegamos no escuro mal sabíamos o que esperar para o dia seguinte. Relaxados pela água preparamos uma moqueca enquanto o Anselmo contava causos que escutou dos índios mais antigos alternando entre histórias engraçadas e de sabedoria. No dia seguinte a surpresa foi grande, um nascer do sol espetacular refletiu no lago aumentando ainda mais a magia do lugar. A medida que o dia esquentou, foi ficando claro que precisávamos entrar mais uma vez naquelas águas para nos despedirmos daquele lugar especial. Na época o Caracaranã estava fechado para turismo, mas pelo que disseram, as vezes abre, as vezes fecha, vale a pena checar!

Nascer do sol no lago Caracaranã


Refrescando no lago


Pra completar ainda conhecemos o CASAI, Casa de Apoio à Saúde do Índio, um centro onde várias etnias convivem enquanto esperam uma consulta ou tratamento no hospital da cidade. Nos divertimos ao ver a enfermaria vazia e escutar da enfermeira que é impossível mantê-los entre quatro paredes, estavam mesmo em redes, embaixo das árvores, mantendo o costume da floresta. Conversamos aqui e ali quando possível, pois poucos falam português e o Anselmo aproveitava para ajudar como intérprete quando precisavam. Experiência única para nós, conhecer o índio na sua essência, sem muito contato com o nosso mundo, incomodados por estarem ali.Inclusive, depois de um longo papo com a assistente social do CASAI, ficamos sabendo que ainda há etnias sem nenhum contato com não índios. Ficamos impressionados e felizes em saber que pequena parte da nossa cultura ainda está intacta.

No CASAI

Voltando para Boa Vista nos deixou triste lembrar que a classe política roraimense, assim como os não índios em geral, não simpatizam muito com os índios. Nacionalmente também há uma clara distinção entre deputados indigenistas e deputados ruralistas que não podem ver uns aos outros nem pintados de ouro, nas rodas de bate papo o tema é polêmico e a questão indígena é uma questão e não apenas um fato. Brasileiros contra brasileiros.

Garota Macuxi!

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