DayTrippers – Paixão em Viajar

Balbina É Surreal!

Quem dera esse título fosse um elogio ao belo pôr do sol refletido nas águas com uma carga de drama dos chamados “paliteiros” da represa de Balbina. Os “paliteiros” nada mais são que cemitérios de árvores alagadas, homenagem à incompetência dos governos militares na construção dessa, que é considerada a mais ineficiente usina hidrelétrica do Brasil.

Os “paliteiros”

Querendo ver de perto esse ícone que é até hoje um dos maiores desastres ambientais do planeta, saímos de Presidente Figueiredo e fomos até a Vila de Balbina, ainda no mesmo munícipio. Logo na entrada da vila, um museu desativado e desmoronando, denuncia a decadência do lugar que foi projetado para 10 mil pessoas e hoje abriga menos de 3.000. Estávamos loucos para conhecer o projeto de proteção ao peixe boi, então corremos para o escritório deles e marcamos um horário no dia seguinte.

Exemplar jovem no tanque principal

Ansiosos pelo que viria pela frente, fomos buscar algum canto para passar a noite e fomos muito bem recebidos pela gerente de uma pousada, que permitiu que acampássemos em frente ao estabelecimento e nos emprestou o banheiro. Logo estávamos cozinhando juntos e ouvindo suas histórias sobre migrações entre Colômbia e Bolívia. O movimento da pousada gira em torno da pesca esportiva do tucunaré, um dos poucos sobreviventes aos impactos da represa, por se tratar de um peixe que se adapta bem a águas rasas, diferentemente dos peixes de couro.

Peixes-boi

Hora de encontrar o peixe-boi! Fomos para o Centro de Preservação e Pesquisa de Mamíferos Aquáticos (CPPMA), mantido pela Eletrobrás/Eletronorte, que recebe os peixes-boi geralmente órfãos, em função da caça, ou aqueles que se enroscam em redes e que precisam de cuidados. Aliás a caça do peixe-boi, espécie ameaçada em extinção, é tão agressiva e mórbida que nos deixou pensativos por horas. Por serem dóceis, os caçadores se aproximam com o barco, martelam estacas de madeira nas narinas do animal e aguardam até que morram asfixiados.

Um filhote

Quem nos recebeu no Centro foi a Dani, uma veterinária apaixonada pelos animais que protege, que nos mostrou os filhotes, lindos e dóceis, os deficientes separados em tanques menores para cuidados especiais e os tanques principais, onde ficou claro que há uma superlotação de animais. Os peixes-boi-da-amazônia são acinzentados, alimentam-se de gramíneas e chegam até 3 metros e 450kg, são imensos! A Dani encheu os olhos de lágrimas enquanto falava da morte lenta e sufocante que sofrem quando caçados, nos emocionamos junto com ela. O baixo nível de investimentos não permite que os peixes-boi sejam reintroduzidos à natureza, o que deveria ser o grande objetivo do projeto.

Isa e Dani observam um dos tanques

Além de ter inundado a terra dos Waimiri-Atroari e matar milhares de animais, balbina alagou 2.360km2 de floresta para alcançar um potencial energético de 250 megawatts, enquanto Tucuruí, outra usina da Amazônia, produz 8.340mw com a mesma área alagada, ou seja, 33 vezes mais. Além disso, a pressa em inaugurar a obra, a falta de leis e o desrespeito à natureza, permitiram que a represa fosse enchida sem que as árvores fossem cortadas e aproveitadas comercialmente. Pelo contrário, uma vez encobertas, as árvores apodrecem degradando a qualidade da água e produzindo dióxido de carbono e metano, fazendo com que a eletricidade de balbina produza 10 vezes mais gases estufa por megawatt que uma termoelétrica, o equivalente a metade dos carros que circulam por São Paulo, a um custo recorde. Tudo isso para garantir apenas 10% da energia necessária para Manaus.

A hidrelétrica


O físico José Goldemberg afirmou que Balbina deveria ser desativada e mantida como um monumento à insanidade humana.

Sim, Balbina é surreal.

O pôr do sol no “paliteiro”

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *